#DifraçõesHistóricas

Uma escrita da História no tempo das contingências

Como antidepressivos ameaçam a biodiversidade?

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Fonte: tumblr.com

De acordo com Andrew Biro, em um ensaio na coletânea Thinking with Water (2013), humanos são corpos de água, no sentido biológico, situados em um espaço que é sempre uma bacia hidrográfica partícipe de um ciclo hidrológico planetário. Nossos corpos são, como diria Stacy Alaimo, “transcorpóreos”, misturas contingentes formadas e atravessadas por água, bactérias, substâncias tóxicas. Trata-se de uma materialidade emergente interconectada ao ambiente pela circulação de elementos materiais que transgridem a fronteira arbitrariamente definida entre humano e natureza. Assim, o que os humanos consomem (alimentos, água, remédios) em algum momento pode ser consumido por outros seres que habitam o espaço comum planetário constituído por água. O caso dos antidepressivos e ansiolíticos parecem exemplificar bem essas inter e intra-conexões materiais do humano com o planeta.

Um estudo recente publicado na revista Ecology and Evolution, por pesquisadores da Portland State University, aponta que caranguejos na costa do estado do Oregon, nos EUA, estão apresentando comportamento de risco, preocupando-se menos com seus predadores e entrando mais em conflito com membros de sua própria espécie devido à exposição a fluoxetina (princípio ativo do antidepressivo Prozac). Essa e outras substâncias são despejadas das residências e das instalações hospitalares e, por meio das galerias de esgoto, chegam em grande quantidade nos corpos de água doce e no mar.

Mas não é só. Em agosto, foi publicado outro estudo na revista Environmental Science and Technology, apontando que foram encontrados várias substâncias antidepressivas no cérebro de diversas espécies de peixes nos Grandes Lagos, na fronteira entre os EUA e o Canadá. Embora os níveis de antidepresivos e ansiolíticos encontrados não representem um perigo para o consumo humano, os especialistas alertam que essas substâncias se acumulam na região cerebral dos peixes ao longo do tempo, provocando mudanças no comportamento alimentar e nos instintos de sobrevivência dessas espécies.

A conclusão de ambos os estudos apontam que o crescente consumo de antidepressivos e ansiolíticos representa uma ameaça real à biodiversidade. Os efeitos na fauna aquática, contudo, ainda estão começando a ser analisados. Os autores também lançam luz sobre as falhas nos sistemas de tratamento de águas residuais, que concentram esforços na eliminação de bactérias, resíduos e excrementos sólidos. As substâncias antidepressivas e ansiolíticas, contudo, são eliminadas pela urina, não existindo, ainda, qualquer medida para impedir que elas cheguem nos corpos de água doce e no oceano.

Referências

Alaimo, Stacy. Bodity Natures: Science, Environment and the Material Self. Bloomington and Indianápolis: Indiana University Press, 2010.

Arnnok P, Singh RR, Rodjana Burakham R, Pérez-Fuentetaja A, Aga DS. Selective Uptake and Bioaccumulation of Antidepressants in Fish from Effluent-Impacted Niagara River. Environ. Sci. Technol., 2017, 51 (18), pp 10652–10662. https://doi.org/10.1021/acs.est.7b02912

Biro, Andrew. River-adaptiveness in a globalized world. In: Chen, Cecília et al. Thinking With Water. Montreal & Kingdon/London/ Ithaca: McGill-Queen’s University Press, 2013.

Hsu, Charlotte. Antidepressants found in fish brains in Great Lakes region. News Center University of Buffalo, aug. 31, 2017. Acesso em: http://www.buffalo.edu/news/releases/2017/08/042.html

Peters JR, Granek EF, de Rivera CE, Rollins M. Prozac in the water: Chronic fluoxetine exposure and predation risk interact to shape behaviors in an estuarine crab. Ecol Evol. 2017; 00:1–11. https://doi.org/10.1002/ece3.3453

Prozac in ocean water a possible threat to sea life. Science News, oct. 20, 2017. Acesso em: https://www.sciencedaily.com/releases/2017/10/171020125809.htm?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

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Publicado às 21 de outubro de 2017 por em Curiosidades provocativas e marcado , , , , , , .
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