#DifraçõesHistóricas

Uma escrita da História no tempo das contingências

Sonic Intimacy, de Dominic Pettman (2017)

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PETTMAN, Dominic. Sonic Intimacy: voice, species, technics or how to listen to the world. Stanford University Press, 2017. 144p.

A obra Sonic Intimacy, de Dominic Pettman, contém uma proposta não-antropocêntrica e não-binária de entendimento do som e da voz. Seria mais correto falarmos aqui em “sons” e “vozes”, pois Pettman rejeita, por um lado, a noção de voz como característica inerentemente humana e, por outro lado, a metáfora romântica da “voz da natureza” e “voz do mundo” em sentido holístico. A voz aqui é entendida pra além de uma fonte originária, sendo um constructo material que envolve diversos outros sons e audições que à um só tempo conformam as vozes que compõem uma paisagem. Toda voz, seja a de uma mãe que cuida do seu filho pequeno, ou a de uma solitária baleia no oceano é uma singular paisagem sonora, que conforma o mundo à partir de outras paisagens. A “voz do mundo”, assim, deve ser entendida como um coral de múltiplas e diferentes vozes, que envolvem o choro de uma criança humana, o toque de um sino de igreja, o canto de diferentes espécies de pássaros, o som do roçar das folhas das árvores com o sopro dos ventos, dentre outros.

Em quatro capítulos a obra explora diferentes vozes presentes no mundo atual e como uma percepção descentralizada dessas vozes podem nos ajudar no entendimento sobre a atual crise planetária, classificada por muitos, como o “antropoceno”. É claro, que a obra não se limita à uma questão “ambiental”, entendendo a atual crise como resultante de uma experiência ontológica que produz hierarquias e formas de dominação que remetem à problemas relacionados à raça, classe, gênero e outros. O primeiro capítulo explora a voz das tecnologias, especialmente à partir do caso de amor entre Theodore, um homem de meia idade, e Samantha, um sistema operacional, no filme Her (2013), de Spike Jonze. Nesse capítulo o autor explora como softwares de vozes produzem corpos e realidades materiais, diluindo as fronteiras entre humanos e tecnologias, por meio de uma intimidade sônica. No segundo capítulo, o autor explora a voz na formação dos gêneros, especialmente à partir dos sons durante o pré-natal e na primeira infância. O terceiro capítulo é dedicado aos animais, onde Pettman analisa as dificuldades de se localizar as fontes originais e a propriedade de uma voz. No último capítulo, Pettman propõe o que ele chama de “voz ecológica,” quando qualquer coisa é entendida como dotada de voz, a partir de uma percepção mais relacional de sons e vozes.

On the one hand, they speak of “Sonic Intimacy”, which suggests a turning inward, away from the wider world, to more private and personal experiences and relationships. On the other hand, they seek to heed “they voice of the world,” as expressed in all manner of creatures, agents, entities, objects, and phenomena.

Essa proposta mais relacional da voz, recusando-se a localizar sua origem, (que dialoga fortemente com a noção de voz acusmática, ou voz-sem-corpo, que vem de Pitágoras e mais recentemente de Pierre Schaeffer, sobre a experiência auditiva na música concreta), me parece um dos pontos mais interessantes da obra de Sonic Intimacy, embora não seja de todo original. A pŕopria noção de intimidade está ligada à experiência com o outro, que é sempre próxima, independente das nossas percepções acerca dessa proximidade. Sonic Intimacy é um trabalho de caráter filosófico e transdisciplinar, longe das amarras conceituais de fundo dualista que ainda regem alguns campos do conhecimento científico e trata-se de uma contribuição importante em um momento de crise planetária e na construção de uma igualdade na pluralidade e diferença

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Publicado às 22 de janeiro de 2018 por em Resenhas/Comentários e marcado , , , , , , .
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