#DifraçõesHistóricas

Uma escrita da História no tempo das contingências

A estética de Matthew

matthew

Furacão Matthew, em 04 de outubro, imagem divulgada no Twitter por @StuOstro

De acordo com Karen Barad, medidas e medições são práticas agenciais e performáticas. A abordagem científica não revela objetos da natureza, mas ajuda a constituir, é parte constitutiva do que está sendo medido e observado. Nessa conformação mútua entre observado e observador, as medições são confecções de mundo: matéria e significado são co-constituídos a partir de práticas intra-ativas. As propriedades e significados de um fenômeno não precedem as suas relações mas são contingentemente promulgados de forma inseparável. Medições, são, assim, “práticas materiais-discursivas de materialização.” [1]

Embora Barad esteja se referindo a qualquer tipo de prática científica, ela pode (e deve) ser ampliada para todos os aspectos das relações humanas e não-humanas. A fotografia do furacão Matthew que circula, atualmente, na internet ajuda na visualização dessa fórmula. Os meteorologistas costumam utilizar escalas de cores em imagens infravermelhas para melhor identificar as partes mais fortes de uma tempestade. Essas imagens são comumente vistas nos noticiários sobre previsão do tempo. No caso do furacão Matthew, uma poderosa tempestade de categoria 5, foram usadas as cores vermelho, cinza e preto para melhor determinar as suas características, no momento em que ela dava landfall no oeste do Haiti. A imagem, contudo, formou algo precido com um crânio humano. A sinistra fotografia foi compartilhada pelo meteorologista sênior Stu Ostro, do Weather Channel, em sua conta do twitter no dia 4 de outubro e a imagem viralizou.

Matthew era agora um crânio. Um símbolo da morte. Essa passou a ser a sua estética, apesar de ter mudado de forma logo nas fotografias e medições seguintes. Para os meteorologistas e para as autoridades políticas, formando ou não um crânio, Matthew era um dos furacões mais perigosos do Atlântico em anos, provocando alertas e deslocamentos populacionais pelos altos riscos que ele representa. Na imagem, o olho do crânio é o centro da tempestade e os dentes seriam “núvens convectivas frias”, segundo o meteorologista Paul Meyer, da NASA [2].

Na internet, contudo, a imagem de Matthew ganhou alta complexidade. Nos comentários da foto há os céticos, insinuando que os cientistas da NASA estavam brincando com photoshop. Há os comentários cômicos, comparando a tempestade com Ghost Rider e Grinch. Comentários políticos jocosos, afirmando que o furacão se parecia com a Hillary Clinton e outros aproveitando para criar memes com Donald Trump. Postagens preconceituosas insinuvam que a tempestava estava homenageando o Haiti por esta ser a terra do Vodoo. E, claro, há muita preocupação com a força da tempestade e mensagens de caráter religioso. Abundam citações bíblicas e profecias do fim do mundo: Matthew, para muitos, foi enviado por Deus e para outros foi trazido pelo demônio ou era a própria besta.

Matthew deixou um enorme rastro de destruição e centenas de vítimas no Haiti, Cuba e Bahamas. Nesse momento, ele segue para a Flórida como, segundo os cientistas, uma perigosa tormenta de categoria 4 (5 é a força máxima). Muito mais do que simplesmente um “fenômeno da natureza”, esse grande conglomerado de massas de ar e água formam um corpo composto de múltiplas histórias possíveis de intra-ação com todas as outras entidades, sejam humanas ou não-humanas. Sua identidade é variada e dinamicamente reconfigurável, sua materialidade permanece aberta, mutável. Na internet, assim como na mídia, a estética de Matthew é antropomórfica e associada a morte, devido, especialmente, a imagem do crânio humano que emergiu das relações entre instrumentos, métodos de medição e o próprio fenômeno hidrometeorológico. Sua fotografia suscitou medos, mas também preconceitos, debates políticos, piadas. Para os atingidos, aqueles que se relacionam mais intimamente com a tempestade, Matthew possui também outros múltiplos significados e materialidades. Como podemos sugerir, o furacão Matthew é/são muitas coisas e sua estética é essencialmente variada e complexa.

Referências

1 BARAD, Karen M. What is the measure of nothingness? Infinity, virtuality, justice. dOCUMENTA Notebook n° 099. Ostfildern: Hatje Cantz, 2012.

2 ZENTENO, Rolando. Skull image of Hurricane Matthew spooks the Internet. CNN. October, 05, 2016. http://edition.cnn.com/2016/10/05/health/hurricane-matthew-skull-trnd/

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