#DifraçõesHistóricas

Uma escrita da História no tempo das contingências

Ontologia do Acidente (2014) de Catherine Malabou

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Tornado no meio de estrada

Em Le Théoreme d’Almodovar (O Teorema de Almodovar), Antoni Casa Ros descreve o acidente de carro que o desfigurou: um cervo surge na estrada, o escritor perde o controle do carro, sua companheira morre a hora, ele tem o rosto completamente destruído. “No começo, acreditei nos médicos, mas a cirurgia reparadora não pôde retirar de meu rosto seu estilo cubista. Picasso teria me odiado, pois sou negação de sua invenção. É de se crer que ele também teria me encontrado na estação de Perpignan, o centro do universo segundo Dalí. Sou uma foto mexida que poderia fazer pensar num rosto”. (p. 18)

A filósofa Catherine Malabou, na obra “Ontologia do Acidente: ensaio sobre a plasticidade destrutiva”, analisa a capacidade de metamorfose do ser, a partir de eventos súbitos. Esses eventos, podem ser de qualquer ordem. Uma traição conjugal, um acidente de carro, até momentos de crise política e econômica, guerras, catástrofes climáticas, desastre ambiental, desde que promovam um choque destrutivo do ser. Para ela, a destruição pode dar vida a uma nova forma, uma nova identidade, radicalmente diferente da anterior e fundamentalmente negativa sem um contraponto positivo. Ela chama a atenção para a capacidade do cérebro em se transformar, adquirir uma outra forma, diante de graves traumatismos, em que esteja presente a condição de impossibilidade de fuga. Essa nova forma, como aponta Malabou, é “nascida do acidente, nascida por acidente, uma espécie de acidente” (p. 12). Um personagem inteiramente novo, sobretudo, frio, indiferente, impassível, cujas origens são pouco identificáveis com o passado. Um indivíduo que também vaga de maneira existencialmente errante e improvisada, sem perspectivas de futuro.

Fui testemunha de transformações desse tipo, mesmo se não deformavam os rostos, mesmo se procediam menos diretamente de acidentes reconhecidos como tais. Menos espetaculares, menos brutais, nem por isso deixavam de ter o poder de começar um fim, de deslocar o sentido de uma vida. Em certo casal que não conseguia se recuperar de uma infidelidade. Numa mulher de alta sociedade cujo filho rompeu com tudo brutalmente, deixou sua família para morar ilegalmente no norte da França. Num colega que foi viver no Texas achando que seria feliz lá. Em muitas pessoas, no centro da França, onde morei muito tempo, que perderam seu trabalho quando estavam na faixa dos cinquenta anos durante a crise de 1985, em professores de zonas difíceis, em doentes de Alzheimer. O que era impressionante em todos esses casos era que a metamorfose operada, por explicável que fosse quanto as suas causas (desemprego, problemas relacionais, doenças), era absolutamente surpreendente quanto a seus efeitos, e se tornava portanto incompreensível, deslocando a posteriori a causalidade, rompendo os laços etiológicos. Essas pessoas tinham subitamente se tornado estrangeiras para si mesmas pelo fato de não poderem fugir. Não é, ou apenas, que elas estivessem quebradas, oprimidas pela mágoa ou pelo infortúnio, não, elas tinham se tornado pessoas novas, outras, reengendradas, pertencentes a uma espécie diferente. Como se tivessem sofrido, de fato, um acidente. “Uma autobiografia parece ser o relato de uma vida bem preenchida. Uma sucessão de atos. Os deslocamentos de um corpo no espaço-tempo. Aventuras, problemas, alegrias, sofrimentos sem fim. Minha verdadeira vida começa por um fim.” (p. 18-19)

Os três exemplos que norteiam o livro são da plasticidade destrutiva das doenças, da morte e da velhice, com especial atenção para esta última. A velhice é entendida em um duplo movimento. Apesar de ter uma característica gradual, o devir-velho, a velhice também é um acontecimento súbito, o instantâneo da velhice, um acidente que cria um indivíduo novo. Deixa-se de “estar ficando velho” para “ser velho” (p. 37-38).

Esse livro fundamentalmente trabalha com rupturas. Apresenta uma forma, talvez promissora, de repensarmos os indivíduos e suas biografias em sintonia com os acidentes. Um indivíduo pode ser dois ou mais indivíduos, se levarmos em consideração que a história de um personagem é também uma série de acidentes que promovem bifurcações para além da trajetória de vida. Poderíamos falar, então, de diferentes trajetórias de vida, diferentes personagens em um mesmo indivíduo, nos afastando das características essencialmente lineares de trajetórias e biografias.

Referência

MALABOU, Catherine. Ontologia do Acidente: ensaio sobre a plasticidade destrutiva. Trad. Fernando Scheibe. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2014 (Coleção Anima).

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Publicado às 9 de julho de 2016 por em Notas de leitura, Resenhas/Comentários e marcado , , , .
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