#DifraçõesHistóricas

Uma escrita da História no tempo das contingências

Pode o Subalterno Falar? (2010), de Gayatri C. Spivak

Gayatri Chakravorty Spivak

Gayatri Chakravorty Spivak

O caso do suttee como exemplo da mulher no imperialismo desafiaria e desconstruiria essa oposição entre sujeito (lei) e objeto de conhecimento (repressão) e marcaria o lugar do “desaparecimento” com algo que fosse diferente do silêncio e da inexistência – uma violenta aporia entre o status de sujeito e de objeto (p. 120).

Recentemente terminei de ler a versão em português do livro Can the Subaltern Speak? (Pode o Subalterno Falar?) da crítica indiana Gayatri Spivak [1]. O nome do livro já é, em si, uma provocação que deixa antever os problemas relativos à representação política, econômica e social, tanto para quem representa, quanto para aqueles que são representados. Ao longo das 133 páginas do livro, divididas em quatro partes, Spivak realiza um trabalho de desconstrução crítica, especialmente de grandes expoentes da filosofia europeia do seu tempo, para evidenciar a violência epistêmica sofrida pelos sujeitos em condição de subalternidade, especialmente no terceiro mundo.

Seus principais alvos são os filósofos Michel Foucault e Gilles Deleuze, cujas ideias, segundo ela, mantêm o silêncio e a invisibilidade do sujeito subalterno. Foucault, por exemplo, ao dar ênfase a análise dos mecanismos de poder, reconhece a autenticidade do subalterno, sem, contudo, deixar a voz desse sujeito emergir no processo. O subalterno é autoconsolidado enquanto “O Outro” que, contraditoriamente, ao falar por si mesmo enquanto Outro tem a sua representação apagada. Ambos os filósofos, com isso, se fazem cúmplices de uma tradicional atitude etnocêntrica da intelectualidade ocidental que apaga o subalterno em suas análises e reproduz essa condição, mesmo quando o objeto de estudo é esse sujeito colonial. Segundo Spivak “Tornar o pensamento ou o sujeito pensante transparente ou invisível parece, por contraste, ocultar o reconhecimento do outro por assimilação” (p. 83).

Assim, Spivak inspira-se no pensamento de Jacques Derrida, para sinalizar uma visão mais híbrida tanto do sujeito imperial quanto do sujeito colonial. Ambos seriam Quase-Outro em oposição à concepção de Outro puro ou consolidado. Desse modo, a consciência do sujeito colonial e seu reconhecimento conformam-se por assimilação. Sua obra é encerrada com uma análise sobre a consciência da mulher nos rituais de sacrifício das viúvas (sati/suttee), tendo como fio condutor a proibição desse ritual por parte do governo Britânico em 1829.

Penso que uma das contribuições indiretas mais interessantes para a História das Ciências, tanto da obra de Spivak, quanto do movimento pós-colonial, é inspirar estudos que mapeiam como o pensamento imperial e as fronteiras epistemológicas erguidas pela ciência e filosofia modernas foram provenientes de experiências, saberes e práticas que ocorriam nas colônias. Ou seja, o sujeito colonial teve um papel importante na conformação dos saberes e práticas do sujeito imperial e vice-versa. Essa forma de análise implode as dicotomias modernas que engendram múltiplas hierarquias e formas de dominação. Alguns historiadores da ciência, dentre eles o também indiano Kapil Raj, são profundamente inspirados pelo movimento pós-colonial e por uma noção de ciência moderna que torna importante identificar o papel dos conhecimentos dos habitantes das colônias na conformação de teorias cientificas na Europa [2].

Contudo, a partir da leitura da obra de Spivak foi forte em mim o impulso de transgredir as próprias ideias da autora, radicalizando o seu pensamento sobre o sujeito subalterno. Pensei no subalterno, não só como a mulher negra, viúva, nativa da colônia em relação ao sujeito imperial, mas também nos animais, objetos, plantas, enfim, entidades não-humanas em relação ao humano. Afinal, o “mundo natural” ao “falar por si mesmo” em sua dinâmica própria, apartada do humano e, muitas vezes passiva como um Outro, não é também e mais dramaticamente lançado à condição de subalterno nas humanidades? Seria plausível radicalizar a noção de subalternidade para incluir não só as mulheres negras, as comunidades humanas das colônias, o conhecimento “leigo”, mas também os não-humanos na construção da ciência moderna? A noção de subalternidade seria útil para produzir análises menos antropocêntricas e mais complexas do processo histórico?

No final, a provocação de Spivak me deixou com muitas dúvidas e pensamentos soltos, mas, sobretudo, inspirou e reforçou minhas convicções na necessidade de repensarmos as dicotomias próprias do pensamento moderno e principalmente a forma como o ambiente está inserido na reflexão histórica, mesmo que sua obra atenha-se exclusivamente à mulher e ao sujeito humano colonial.

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Referências

[1] SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar?.Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.

[2] RAJ, Kapil. Relocating Modern Science: Circulation and the Construction of Knowledge in South Asia and Europe, 1650–1900. Houndmills and New York: Palgrave Macmillan, 2007.

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Publicado às 4 de julho de 2015 por em Resenhas/Comentários e marcado , , , , .
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